::Ansiedade::

Publicado: outubro 11, 2010 em Ansiedade, Fiat Siena FireFlex, VW Fusca'76
Em poucos momentos da minha vida me senti um verdadeiro canalha, mas nunca me remoí tanto por isso quanto da vez em que estive conversando com um amigo por meio de MPs (mensagens privadas em um fórum automotivo).

Falavamos constantemente sobre alguns assuntos relevantes, outros nem tanto, mas como minha conta estava com problemas de configuração para receber um e-mail comunicando o recebimento de MPs, pedi para que ele me mandasse o e-mail diretamente, assim, responderia de pronto. Eu estava (e ainda estou) bastante ocupado à época e ele também, mas prometeu que enviaria o e-mail e eu que responderia de pronto.

No dia 24 de Agosto de 2010 ele me mandou o e-mail. Umas duas semanas depois de nossa última troca de mensagens e só agora tomei vergonha na cara de responder. Como é um assunto muito abrangente e não envolve nenhum terceiro que possa vir a ser prejudicado, não ví problema em abrir um pouco mais essa discussão que envolve basicamente projetos automotivos.

A história:
Ao contrário de muitos que primeiro compram o carro para depois comprarem as peças, ele fez o contrário. Comprou as peças e depois ganhou o carro. Sim! Ganhou o carro de alguns amigos que se cotizaram para ajudar (ou fuder de vez) a vida do cara que sempre gostou muito de carros e naquele momento não possuia capacidade financeira para adquirir um que lhe atendesse. Ficou feliz ao receber em casa um VW Gol LS’82 com motor 1600 a ar, mas o carro não estava em boas condições (cavalo dado não se olha os dentes, né?!) mas era tudo o que ele precisava para fazer daquele VW Gol um do projeto, o seu projeto.

Podre para todos os cantos, peças difíceis de serem encontradas faltando e uma aparência geral capaz de deixar qualquer um com cara de “esse cara é retardado, só pode”. Particularmente sou suspeito pra falar qualquer coisa, afinal o Fusca estava do mesmo jeito, se não pior.

Ele já tinha guardado para um futuro projeto um par de bancos Recaro originais do VW Gol GTS’89 com todos os acabamentos, faltando apenas um leve trato nas forrações e pintura das partes metálicas. Comprou um painel satélite completo (inclusive com comandos de ar-condicionado) e se deu de presente de natal. Mais adiante adquiriu dois volantes de época: Um original em perfeito estado de conservação que pode perfeitamente receber a capa da buzina com o emblema de Wolfsburg (esse íntem veio no carro quando ganhou) e um esportivo (de época também) da marca Panther modelo Carrera (o qual espero que ele me venda, pois ficará mais bonito no meu Fusca!).

Pra fechar o pacote de acessórios, comprou ainda dois jogos de rodas das BMWs série 5: Um da 540i (semelhante às BBS RS) de medidas 7×15″ com furação 5×120 (ele vai usar espaçadores/adaptadores para 4×100 > 5×120) e outro de mesmas medidas, mas derivado das E520. Enjoou? Troca! Teria pago caro, mas o vendedor do segundo jogo de rodas foi muito bacana e pegou o primeiro jogo mandou todas juntas pagando um frete só.

Enquanto isso, o BX ia ficando guardado para se proteger da maresia (pra fuder com tudo o cara mora em região litorânea…). O cara tá precisando de uma carroceria nova (essa atual parece não ter salvação).

A conversa:
Batemos um bom papo sobre vida pessoal, projetos pessoais, futuro, negócios, heranças empresariais (nossos pais são empresários) e outras baboseiras e creio que chegamos à um consenso de que muitas das vezes temos que adiar ou simplesmente abortar nossos projetos automobilísticos em razão das adversidades que a vida nos impõe. Apesar dele não ter filhos, “cada um sabe onde seu sapato aperta”, então viver desregradamente, gastando tudo em carros, peças e acessórios é algo que gostariamos, mas não podemos fazer no momento.

Tem dias que dá vontade de largar esse lance de carros pra lá, encerrar o blog, mandar tudo as favas e rodar de carro original sem qualquer acessório, rodas ou acabamento diferenciado (eu já consegui fazer isso por um bom tempo, mas por motivos de força maior), mas tem sempre algo mais forte que te chama, te busca, te insita a continuar. Podem passar dias, meses, anos sem aparecer nada que realmente nos motive a continual, mas é como diz a propaganda: “Keep walking”. O mundo não vai parar pra você descer e nem vai rodar de acordo com a sua toada.

Pensei em falar um monte, dar vários conselhos, expor e explicar situações… mas resumo tudo apenas em USEM FILTRO SOLAR!!!

Parece brincadeira, mas dia desses estava ouvindo o áudio desse clipe no carro e logo pensei no e-mail desse amigo. Não pude deixar de inserí-lo na resposta.

A ansiedade:
Depois de tudo, ele me questionou sobre a ansiedade acerca do (meu? ou…) nosso projeto. Aqui ele lembrou também do meu pai e disse que achou bacana a iniciativa do velho, apesar do pai dele não apoiá-lo tanto.

A ansiedade que sinto é mais por conta do meu pai. Esse Fusca estamos montando principalmente pra ele. Ele é quem vem investindo mais na reforma do carro, ele é quem sempre sonhou em ter um Fusca, ele é quem quer usar o carro nos finais de semana para levar minha mãe, minha avó e minhas filhas para passear. Eu curto a parte do trabalho, da perturbação, da apurrinhação, da cobrança, da fiscalização do trabalho empregado no carro. Claro que vou adorar andar no carro pronto, passear, levar aos eventos, exposições, encontros, viagens… mas o que eu gosto mesmo é da fase em que o carro está. Talvez por estar vendo o carro progredir (mesmo que lentamente) e estar acompanhando quase que diariamente o andar dos trabalhos, ma confesso que ver o Fusca parado na garagem há algum tempo atrás me corroia. Eu me sentia mal por deixá-lo lá, mas não adiantaria deixá-lo em qualquer oficina e vê-lo sair de lá pior do que chegou (nada é impossível).

Tenho aprendido a viver mais lentamente. A correria e o estresse do dia-a-dia estavam me matando e as conseqüências disso estavam deixando seus rastros: Noites mal dormidas, nervosismo, agonia, dores pelo corpo… eu estava sofrendo da Síndrome de Burnout (até pra ficar doente o médico me associa a algo que lembra carros, vai entender). É a chamada síndrome do esgotamento profissional, que de início, não passava de uma constante dor de cabeça e uma agressividade fora do comum. Precisei buscar um profissional para buscar uma nova maneira de enfrentar a vida. Ninguém da minha família sabe (ou soube até agora), pois já temos casos de depressão na família e eu não quis preocupar mais ninguém. Coincidentemente calhou com a chegada de um novo animal de estimação lá em casa, a compra do Fusca, logo depois com o início de uma empreitada no Siena… e assim vou me curando. Ainda pretendo tirar férias, mas não por agora.

Minha ansiedade aprendi a controlar, pois se deixasse seria dominado por ela. Dizer que estou curado é a mais pura mentira, mas vou vivendo um dia de cada vez, lidando com as dificuldades (por pior que sejam) de uma maneira muito mais amena do que boa parte das pessoas. Não vou me descabelar porque aquela peça não chegou no dia certo, apenas vou esperar mais um pouco antes de ligar para o gerente da loja que me vendeu antes de xingar o cara e excomungar a família dele até a última geração. Isso não vai me levar a nada e nem mesmo vai resolver meu problema.

Não tenho medo da morte, mas tenho medo de morrer. Ainda quero ver os filhos das minhas filhas e muitas outras coisas boas nesse mundo. Ainda quero montar uma garagem inteira com bons carros e vender tudo depois para dar a volta ao mundo curtindo uma boa gastronomia ao lado da minha esposa. Se fosse ficar ansioso, não chegaria nem aos 30!

Obrigado ao amigo que me mandou o e-mail e obrigado ainda mais por esperar “ansiosamente” pela resposta. Me ajudou bastante a refletir o que quero e o que posso nessa vida.

Abraços a todos.

comentários
  1. Ramon disse:

    Show , belíssimo texto cara , realmente me fez ver coisas que não conseguia enxergar , é bom quando isso acontece , pois ai paramos e redirecionamos … igual o gps faz quando entramos na rua errada … ele simplesmente “recalcula rota” !!

    Novamente parabéns pelos belos textos e matérias !!

    Abraço

    Ramon

  2. Celso disse:

    As esperas ansiosas pelas respostas que você dá são amplamente recompensadas pelo consistente acalento que elas trazem!

  3. Depreciar disse:

    A vida deve ser levada a serio ao mesmo tempo que não se deve levar ela tão a serio, o lance e focar no que se quer e seguir em frente não ligando para as adversidades que surgiram pelo caminho, pois a recompensa que se tem ao concluir os nosso objetivos nos faz dar risadas de qualquer adversidade que tenhamos passado. Eu gosto de pensar assim.

    E penso parecido com você sobre esse lance de restauração ou customização, gosto de ver o processo em si, a ideia tomando forma, não me interessando muito pelo projeto apos concluido.

    Parabens pelas materias e bom ler um blog sobre carros de um cara de brasilia.

  4. Francisco Neto disse:

    Sábias palavras Rafa. A ansiedade ainda eh presente mas estou aos poucos aprendendo a lidar com ela e praticando a ideia de viver a vida a cada momento, a cada kilômetro.

    Entendo tambem que somos homens de muitas responsabildiades e não podemos nos deixar abalar pelos obstáculos que vierem. Parafraseando o lema da Petrobras (o desafio é a nossa energia) tem que se ter determinação, muita energia e muita disciplina para continuar com nossos projetos, sejam eles pessoais, automotivos e profissionais. Saber regrar prioridades e continuar a caminhada. Acredito que estou no caminho certo.

    Fico feliz em saber que nosso contato lhe fez repensar alguns fatos de sua vida e ainda bem que diagnosticates logo os sintomas da síndrome. Que o Burnout seja em breve, apenas um momento de diversão e não um sintoma de comportamento. Queimemos borracha, não nossa saúde!

    Obrigado pelo retorno!

    Um abraço!

  5. Anonymous disse:

    sim…as vezes é preciso se dar um tempo, quando se chega no fundo do poço como cheguei, se nota que tem outras coisas de valores alem de um carro (saude, familia,casa, empresa…) pena as vezes ser muito tarde. Considero meu caso meio “islamico” sempre fui louco por carros preparados, turbos, aspirados e o que viesse,tudo sempre as margens da lei, acidentes, policia, cadeia e enormes prejuizos financeiros, ao longo de anos minha vida é assim, prejudico minha vida, de minha familia, meu negocio e hj me vejo praticamente de apé depois do ultimo golpe que levei de mim mesmo…me refiro a “fundo do poço” para alguem apaixonado por carros chegar a ficar sem o seu, por culpa própria, é o pq alguma coisa está errada…quando cai a ficha, vc sente falta, de ter um carro mais original, sente falta de fazer coisas que vc fazia antes, e agora não faz mais para poder deixar seu bolido cada vez melhor…a vergonha e remorso te pegam, olhar para esposa, pais e irmãos fica cada vez mais dificil. Sempre ouvia bons conselhos e não dava atenção, mas hj me vejo na posição daqueles que me falavam e sinto a mesma vontade que talvez eles tinham…se alguem puder entender, vá devagar, tente pelo menos…faça seu carro com o que vc tem, não de um passo maior que a perna e não faça as coisas erradas nos lugares errados, é dificil aceitar a vida, mas tem coisa que não é para a gente e não adianta insistir em mudar isto, as vezes vc se revolta em ver aquele cara que gasta sacos de dinheiro no carro dele sem esforço e vc se vê realizando aquele sonho, mas saiba, aquele dinheiro não compra muitas coisas que vc tem e que ele sente falta…a vida é uma balança. Hoje me arrependo muito, não vou deixar de gostar de carro, mas vou recomeçar do zero, vou gostar muito mais de minha familia, de minha casa, de meu negocio…não vai ser facil!
    mas é isso ae, juizo se tiverem!
    abraço

  6. Jason disse:

    Muito bom o texto, acho que muita gente se encaixa nas suas palavras. As vezes da vontade de parar tudo, viver de maneira diferente… mas derrepente nos deparamos com algum foco de luz que nos da força pra continuar. Tenho 2 projetos parados, e no momento tenho responsabilidades maiores, gostaria de estar isento delas, mas essa é minha vida e tenho que aprender a viver mais “lentamente”.

    Abraço

  7. "Amaral" disse:

    Suava na nave mano, tudo se resolve blablabla dar tempo ao tempo

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