::Gorete, encontros, desencontros, suas rugas e alguns presentes::

Publicado: setembro 28, 2011 em VW Fusca'76
Não sei bem o quanto se passou desde a última vez que escrevi sobre a Gorete. A máxima de que “em casa de ferreiro o espeto é de pau”, é a mais pura verdade. Dou prioridade a todas as outras coisas, menos a cuidar corretamente daquelas que me pertencem.

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Fiquei muito tempo sem escrever sobre a Gorete por aqui e a verdade é que uma “parada estratégica” no projeto para recuperar o fôlego quase vira um desastre familiar.Desde a última postagem deste projeto até agora já se vão quase 10 meses, mas ela não ficou como estava. As mudanças principais foram a instalação do motor e a elétrica parcial dela. Chega de lero-lero e vamos ao que interessa.

Ao sair da funilaria, a Gogo seguiu direto para a oficina HR Centro Automotivo – (61) 3344-3782 para a revisão completa do motor e freios. Como meu mecânico de confiança indicou um bom eletricista alí perto, o mesmo ficou encarregado de montar todo o aparato elétrico para que ela pudesse funcionar corretamente. O motor já havia seguido antecipadamente para adiantar o serviço e após duas semanas…

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Como a oficina era longe do meu trabalho e da minha casa, não tenho fotos do processo, mas ficou bem bacana. Após montar todo o interior e suspensão, volta pra elétrica pra finalizar TUDO.

A primeira partida no motor 1.500cc foi de encher os olhos de lágrimas. O acerto ficou muito bom com o novo carburador e a marcha lenta lisa atestaram que a Gorete estava de volta à ativa.Infelizmente, nem tudo são flores. O velocímetro de Alfa Romeo não serviu para adaptar no Fusca. “Até dava pra fazer, mas o esquema de rotação dele é de 1:1, enquanto o do Fusca é 0,5:1 e só em engrenagens e esquemas para adaptação gastaria uns R$ 150,00 (mais que o dobro do valor da peça)” – disse o eletricista. Deixei pra lá e paguei R$ 30,00 pra restaurar o original que estava com o ponteiro quebrado, aro trincado e números imundos. Aproveitei e zerei o hodômetro. O carro tá sendo feito do zero, então não vejo porquê deixá-lo marcando quase 45.000km (sei lá qntas vezes isso já girou…).

Outras pequenas coisinhas foram aparecendo e terei que ir “matando” ao longo do projeto:
# As lanternas traseiras ficaram tortas e só depois descobri que meu pai comprou um par de pára-lamas de Fusquinha (a Gorete é Fuscão).
# O estribo lateral ficou torto e ainda não tive paciência de alinhá-lo (tem um vão de quase um dedo na caixa de ar)
# O pára-lama dianteiro direito ficou adiantado e, consequentemente, a frente parece um pouco torta. Tudo vai demandar MUUUUUUITA calma e paciência para ficar alinhadinho.

Achei que voltaria com ela andando pra casa, mas não consegui comprar os bancos que queria e nem um emprestado eu consegui! Ainda bem! Ela estava sem vidros e a suspensão ficou por último pois ainda tenho a intenção de encurtar o quadro uns 4,5cm de cada lado e instalar umas mangas de eixo deslocadas para não comprometer muito o trabalho da suspensão.

Voltou de guincho:

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Funcionei ela na oficina e tudo certo, mas ao descer do guincho, quem disse que a danada queria pegar? O cara do guincho já havia saído, um temporal se armava e o diacho do Fusca nada de pegar. Começou a pingar e logo liguei para o mecânico:
– Oi, o Fusca não quer pegar! Dá sinal de partida, mas não funciona!
– Você abasteceu?
– Hein?
– Gasolina!!! Você colocou gasolina no tanque?
– Err…
– Vacilão!

Com a força de milhares de bárbaros emanadas em meu corpo, empurrei ela garagem a dentro com os 4 pneus murchos.

No dia seguinte, um amigo traz um saco de emergência com um pouco de gasolina e colocamos ela pra funcionar com alguns trancos:

Ainda sem banco (estou sentado em uma cadeira de bar) e com a suspensão completamente torta, dei minha primeira volta (sem ser guinchado) na Gorete!

Como havia dito, o projeto não era meu. Meu pai queria um Fusca, meu pai comprou um Fusca. Não vou dizer que não estou curtindo até este momento, mas Fusca não é e nem nunca foi meu sonho de “Projeto de Carro”. O que eu fazia era dar alguns presentes aleatórios para conciliar e delimitar o projeto mais para o meu gosto. Se deixasse na mão do meu pai, era capaz dela estar sem teto, com pára-lamas alargados, vidros rebaixados…

Antigamente ninguém lá em casa dava a mínima para o Fusca, mas foi só chegar com pintura nova que as crianças começaram a curtir e até as patroas (que odiaram a idéia de um carro construido a quatro mãos e duas carteiras) elogiaram.

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Dentro deste interim, a história da Gorete na nossa mão tem sido basicamente como um casamento: No início, tudo são flores e amores. Depois, só brigas e desilusões. As discordâncias acerca de alguns detalhes e, basicamente, gosto pessoal culminou em alguns desentendimentos entre eu e meu pai. Tá certo que o que conta é quem paga (neste caso, ele), mas ficou complicado convencer o velho a esperar mais e fazer algo BOM do que correr com o projeto, comprando coisas sem qualidade e sem conhecer um pouco das peculiaridades do veículo. Eu que sou “novo”, gosto da originalidade dos antigos. Meu pai que é “velho”, quer coisas modernas em um carro antigo… vai entender esse conflito de gerações.

Confesso que desanimei com o projeto e pelo jeito, meu pai também. A pouca gasolina que tinha no tanque acabou e na hora de re-abastecer o cabo de abertura se rompeu. Sem ter como abrir o capô para abastecer o jeito foi desligar o cabo da bateria e deixar o carro parado (novamente) até que consigamos $$$ pra mandar ela para montar o interior e suspensão. Quem aproveitava a Gorete eram minhas filhas, que adoravam brincar em um carro que não tinha outra serventia.

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Gastei $$$ com o Siena, comecei a mandar matérias para o Jalopnik, viajei e, se quisesse, o Fusca já estaria andando há tempos… mas eu não fazia a mínima questão. Minha patroa começou a estudar e o Siena acabou ficando com ela quase todo dia. Mesmo eu dependendo de carona pra ir trabalhar, não me animava de investir $$$ num carro que já tinha me deixado tão puto!

A reforma no escritório da família foi outro fator relevante. Com meu pai envolvido no projeto da reforma e eu tendo que servir “de tudo um pouco” dentro do trabalho, pensar em carros era uma das coisas que eu só fazia nas madrugadas sonâmbulas que se tornaram costumeiras e ainda assim era para fazer matérias, sem nem lembrar do Fusca.

Felizmente existem os amigos e eles sempre perguntavam sobre minha família e logo em seguida, do Fusca. Alguns brincavam, outros levavam o papo mais a sério e um deles me deu um presente muito especial que vou usar com toda certeza no Fusca. Logo no início do projeto eu pedi publicamente nas mídias sociais que freqüento alguma mala antiga que ninguém queria mais. O amigo Gustavo Almada respondeu dizendo que tinha uma que fora da sua avó, mas nunca me empenhei efetivamente em ir buscar. Ao visitar um cliente, uma ligação avulsa e em menos de 5 minutos eu estava na casa dele. Ao ver a mala, fiquei embasbacado. Era uma mala rígida, vermelha, impecável… que fora da avó do Guga. Quando ela faleceu, a mãe dele ficou com vários ítens como herança, mas algumas coisas eram descartáveis e se ele não lembra de mim, certamente esta mala estaria num lixo qualquer. Sem palavras para agradecer a lembrança, grande amigo!

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Numa daquelas semanas em que tudo parece dar certo, sentamos para conversar em uma mesa de bar e jogar limpo: Eu e meu pai estavamos de saco cheio de muita coisa um do outro e tivemos que colocar muita coisa em pratos limpos. Depois de conversar, abraçar, sorrir e chorar, falamos do Fusca e combinamos de comprar os bancos no final de semana que se seguiria.

Fiz uma busca com o pessoal do RatVolks e ví que muitos dos bancos adaptados eram de Celta, Palio, Corsa e Civic. Como os preços não eram tão diferentes e as adaptações no assoalho ocorreriam em quaisquer que fossem os bancos escolhidos, optamos pelo do Civic por ser mais confortável, ter um desenho bacana e contar com regulagem de altura. Aproveitamos para comprar os forros traseiros e de porta. O véio ficou todo faceiro!

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Como os bancos traseiros exigiriam uma adaptação maior e eu não gostei do resultado dos que ví, comprei para o Fusca os bancos traseiros em bom estado em um ferro-velho e dei de presente de Dia dos Pais adiantado.

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No dia 29/07 é aniversário foi aniversário da minha filha mais velha e a comemoração aconteceu no dia 30/07 (meu aniversário). Estavamos cantando os parabéns pra pequena e meu pai pediu um minuto de atenção. Não saquei nada, mas comecei a prestar atenção no que o velho tinha pra dizer.

Alguns aqui vão entender o sentido disso, poucos vão entender o significado e quase nenhum de vocês vão compreender a relevância do ato…

… e me entregou uma caixa bacana. Ao abrir, as chaves do Fusca estavam lá dentro. Ele abriu um sorriso, me abraçou bem forte e falou ao meu ouvido:

É teu, meu filho. Fiz pra você até aqui! Faça do jeito que você quiser.

Caralho… Eu tremi inteiro, abracei o velho e chorei.

Quando prestei atenção, tias, avós, mãe, esposa e filhas chorando… foi foda o momento.

Meu pai nunca me deu mais nada depois que comecei a trabalhar. Apenas me alimentava e me vestia, mas nunca com regalias. Trabalho com ele desde os 11 anos de idade (fiz 28) e tudo o que queria eu comprei com meu dinheiro: Primeiro carro, baladas, presentes pra namoradas, banquei casório e comprei casa… tudo com meu suor. Sempre contava com o apoio dele, mas nada vinha de mão beijada. Tudo na base do “trabalha que nada falta”, então creio que alguns de vocês consigam entender a intensidade do presente.

O carro tá na mesma: Sem interior, sem suspensão, sem gasolina… mas o que importa é o elo que este carro representa. A carroceria não ficou perfeita, a pintura não é top, o motor é original… mas tudo foi feito a quatro mãos, duas carteiras e aguentando a ira de duas esposas possessas quando deixávamos de fazer uma coisa ou outra em casa para sairmos comprando peças pro carro. Um carro velho que não seria nem utilizado diariamente (coisa que pras nossas mulheres, não faz sentido)… mas agora é MEU! Vou montá-lo ao meu gosto, do jeito que eu quiser, como eu quiser, errando, aprendendo…

Parei de escrever aqui por conta de uma nova fase que impus pra minha vida: Família, trabalho, amigos, carros e todo o resto. Foi nessa ordem que comecei a priorizar as coisas e tem dado certo. Antigamente passava muito do tempo que deveria estar trabalhando em fóruns, papo na internet e esquecia das minhas obrigações. Era hora de tomar uma nova postura, trabalhar de verdade e dar umas merecidas férias para o meu velho.

A Gorete não é um carro, um objeto e nem mesmo vou se babaca de dizer que é “O” projeto da minha vida, mas a representatividade que ela adquiriu desde o início é algo que ainda não consegui descrever em nenhum dos textos que já postei.

Passada a fase “chororô”, comecei a desmontar o Siena para poder montar a Gorete com algumas peças que eu poderia aproveitar. Tirei as rodas do Stilo e logo na semana seguinte encontrei um cara disposto a trocar um jogo de 17″ por elas. As minhas rodas só serviriam para troca ou ficariam empacotadas no sótão lá de casa esperando meu próximo Fiat Projectz, pois o preço que ofertaram por elas me deixou revoltado. Ví as rodas do carinha e elas estavam em bom estado com pneus legais, precisando apenas de uma pintura nova e uma conferência no balanceamento. As minhas estavam do mesmo jeito, então achei que seria uma boa e concretizamos a troca.

Peguei então um jogo de réplicas de rodas modelo Lamborghini de medidas 7,0×17″, ET 38mm e furação 5x100mm. As rodas vieram calçadas em pneus Pirelli 225/45-17″ que deverão servir para montar apenas na traseira. Na dianteira vou comprar um par de 205/40-17″. Podem não ser as melhores rodas do mundo, ou as mais belas, ou mesmo réplicas de Porsche… mas não precisei desembolsar nenhum centavo por elas, apenas troquei as antigas por estas e neste momento, para fazer o projeto andar, elas ficaram lindas! Melhor que colocar as rodas de Fiat no Fusca, né?! Depois só trocar novamente.

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Um amigo de Belo Horizonte desfez-se um Buggy e me deu as rodas que estavam nele. Tratam-se de um jogo de rodas Gaúchas 5,5×14″ que buscarei até o final do ano e pagarei umas cervejas para agradecer o presente. Compromisso firmado, Brunão! Essas rodas devem ser calçadas com pneus 195/65-14″ na traseira (ah, se eu acho uns Cooper Cobra) e 165/55-14″ na dianteira.

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A foto acima é apenas para exemplificar. Ficarão lindas com as bordas polidas e miolo grafite escuro.

Essa semana fechei o serviço da tapeçaria com um cara indicado por um cliente meu. A julgar pelo serviço executado na Caravan do cliente, a Gorete vai ficar muito legal. Essa semana ainda deve instalar o forro do teto e na semana que vem o carpete e os bancos, daí vai para a suspensão.

Ainda estou buscando juntar o pessoal do Sintonia VW para montar a suspensão do jeito que quero: Quadro de pivô encurtado em 4,5cm em cada lado, catracas e mangas de eixo deslocadas. Caso não consiga com eles, vai ficar original até o dia em que a galera folgar. Todos muito corridos.

Resumidamente foi isso que aconteceu com a Gorete ao longo destes meses que se passaram. Não atualizei pois estava realmente desmotivado com o projeto, mas agora é hora de respirar novos ares, esticar as pernas, tomar gosto por aquela piranha (novo apelido dela) e cuidar dela, afinal, nem sempre amor de verdade surge à primeira vista.

Abraços!

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comentários
  1. Alvaro disse:

    Cara, show de bola o que aconteceu!!! Parabéns!!!

    Espero fazer isso com meu filho!! Já comentei com a minha esposa que um carro velho, não é só um monte de ferro enferrujado, é algo maior, ali você tem sorrisos, gargalhadas, suor, sangue, lágrimas, brigas, enfim é um livro sobre a história de alguém!!!

    Lembro-me das inumeras brigas que tive com meu pai, quando resolviamos 'trabalhar' juntos no seu Del Rey! Muito bom isso, e deste outro lado do computador, me emocionei com isso!!

    Um grande abraço,

    Alvaro
    http://www.gasolinanosangue.blogspot.com

  2. PauloJr disse:

    Muito bom o texto! Foi dificil ler a parte do aniversário sem se emocionar! Quem nunca teve problemas com o pai aqui e depois resolveu da forma que deve ser? Com abraços, amizade e respeito!
    Oww quando vier a BH manda email pra galera daqui te encontrar hein! Não esquece! Abraços!

  3. ® disse:

    Pois é, sei muito bem o que tu passaste porque tive algo muito parecido com o meu pai. Mas Deus é grande e sabe o que faz.

    Infelizmente nunca tive um projeto Pai/Filho, mas ganhei de presente o meu Maverick GT V8 que era dele o que jamais achei que aconteceria. O carro está guardado na garagem, não está impecável nem tão pouco mal cuidado. Esse é um projeto que tenho para quando for promovido.

    A tua história com a Gorete me inspira a fazer o mesmo com o meu carro e gostaria muito que meu pai também participasse.

    No mais ficam aqui os meus parabéns pelo blog e pela tua perseverança.

    Abraço…

    Rafael®

  4. Funfun muito legal ver que houve evolução com a gorete, de fato a parte que vc relata sobre seu pai te dando o carro de presente foi impossível não se emocionar cara, agora é bola pra frente e força pra por a gorete pra rodar e ficar impecável, pois sei que bom gosto você tem.
    Precisando tamo sempre ai.
    Abraços.

  5. dalmohern disse:

    Belíssima história, Rafa! Eu, que andava meio desanimado com carros, depois que li respirei fundo e disse: “por que não?” E agora vou trabalhar de verdade e conseguir um projeto pra mim. Não é pagação de pau, é inspiração.

  6. Nelson disse:

    otima historia brother… tenho uma historia meio parecida com um gol quadrado 92!!!

    quando vejo uma historia de “amor” dessas, fico 100% motivado ha terminar o golzin totamente original…

    abraço

  7. Cesar Rios disse:

    Isso ai rapaz…tenho enumeros projetos…e espero que eu tenha historias assim com meu filho para desfrutar…Cesar

  8. mavecas disse:

    Cara,vc tem o dom de emocionar com as palavras nos seus textos!!!Tremenda estória,depois vou te mandar uma parecida com a sua!!!Quando der,entre no blog mavecas…Forte abraço.

    Vilder Jr.

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